terça-feira, 5 de maio de 2009

A poesia que vem do dicionário I

Auto-retrato
PEDRA: matéria dura e sólida
fragmento
variedade dessa matéria
Essa matéria usada
com fim particular
Montanha
Lápide
Preciosa ou falsa,
na vitrine da joalheria
Usada, um dia, para escrever
Pedaço de qualquer substância
- solida e dura -
Peças de jogos num tabuleiro
afeiçoada
alectória
angular
de amolar
de ara
de escândalo
de toque
filosofal
fundamental
lascada
polida
refratária
no sapato
na mão
& cal
.
.
.
CRISTAL!

Um comentário:

Danilo de Abreu Lima disse...

suraia,
lindo o extraair do dicionário as definições- liricas e poéticas- um estranhamento, quando se desloca de lá para cá-nesse ambiente poético- transcrevo para vc. um poema meu- a sede da pedra- com tema semelhante- não sei se vc; já bhavia lido:

A sede da pedra
não se sacia nunca:
está gravada em sua
nua Pele mineral
memória erigida
em sólida geografia
lodo e limo.

A memória da pedra
seu traçado e inconsistência
seus medos e aparências
contam sua trajetória
seu desvelo em ser pedra
num mundo humano.

O destino da pedra
não se conta nos dedos
nem é gerado nos medos
de quem carrega fardos
ancestrais.
Seu destino pressupõe-se
sólido desígnio
como as ígneas bocas
dos vulcões.

A pedra grita
seu grito mudo
seu silêncio crispado
em cada aresta
de sentido
que lhe resta.

A sede da pedra
é a sede primordial:
não há água que a sacie.

sobre a obra
o poema deve ser sentido, com todos os poros, olhos, bocas, o poema tem que ser provocativo, tem que ser trampolim para um mergulho na alma. O poema não explica, joga as pedras e as deixa rolar, para não criarem limo.

abraços- e ins/piração sempre!